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riscos_e_rabiscos

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Se Eu Morrer de Manhã...

 

Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.

 

Rosa Lobato Faria

 

 

Rosa Lobato Faria partiu.Desejo que se encontre em paz. Esta é a minha singela homenagem que lhe faço. E já agora, quem nunca a leu, experimente e deixe-se encantar...

 

Não Te Quero...

 

 

 

 

Pablo Neruda

 

Não te quero senão porque te quero

e de querer-te a não querer-te chego

e de esperar-te quando não te espero

passa meu coração do frio ao fogo.

 

 

Quero-te apenas porque a ti eu quero,

a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,

e a medida do meu amor viajante

é não ver-te e amar-te como um cego.

 

 

Consumirás talvez a lua de Janeiro,

o seu raio cruel, meu coração inteiro,

roubando-me a chave do sossego.

 

 

Nesta história apenas eu morro

e morrerei de amor porque te quero,

porque te quero, amor, a sangue e fogo.

  

 

 

Annabel Lee

It was many and many a year ago,
         In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
         By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
         Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
         In this kingdom by the sea;
But we loved with a love that was more than love-
         I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
         Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
         In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
         My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsman came
         And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
         In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
         Went envying her and me-
Yes!- that was the reason (as all men know,
         In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
         Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
         Of those who were older than we-
         Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
         Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
         Of the beautiful Annabel Lee.

For the moon never beams without bringing me dreams
         Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I feel the bright eyes
         Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling- my darling- my life and my bride,
         In the sepulchre there by the sea,
         In her tomb by the sounding sea.

-The End-

(By Edgar Allan Poe)

Súplica

 
 
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
 
                                                                                     Miguel Torga
 
(Em jeito de homenagem no centenário do nascimento do poeta)